sábado, 12 de fevereiro de 2011

Rede Globo e Arquivo vão recuperar imagens raras da TV Tupi

Fonte: Jornal O Globo set 2007

Mais de 500 fitas com programas do extinto canal de televisão foram encontradas por acaso, e devem ser recuperadas
"Programa Flávio Calvacanti. 1 fita. Gravado em 07-02-80. Não pode ir ao ar". "Brasil x Alemanha. 2 tempo". "Gonzaguinha especial". As etiquetas com identificações incompletas, que pouco informam e muito instigam, estão em algumas das 536 fitas com programas da TV Tupi encontradas por acaso, entre cadeiras e mesas velhas, no nono andar do prédio dos Diários Associados (proprietários da TV), na Rua do Livramento, no Rio. Parte deste patrimônio está prestes a ser recuperada. A Rede Globo e o Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, instituição para a qual o material foi doado, firmaram acordo para recuperar seu conteúdo.
São reportagens, talk-shows, musicais e programas esportivos exibidos nos anos 60 e 70 e em 1980, ano da cassação da concessão da Tupi. "É um verdadeiro tesouro, já que quase tudo o que a televisão brasileira mostrou nos anos 50, 60 e 70 desapareceu", deslumbra-se o historiador Clóvis Molinari, coordenador de Documentos Audiviosuais e Cartográficos do Arquivo Nacional. "Como o material está em mau estado, se conseguirmos recuperar 10% ou 15% dele, já vai ser um milagre."
O responsável pelo achado, há dois anos, foi o gerente técnico da Rádio Tupi, José Cláudio Barbedo, que depois ajudou a viabilizar a doação formal do material ao Arquivo Nacional, feita pelos Diários Associados. "Achei uns rolinhos de filme no chão, fiquei curioso, porque tinha sido técnico de cinema, e vi que era um comercial. Abri outro e era uma reportagem, provavelmente sem som, já que no início da TV não havia videotape: o repórter captava as imagens e depois o locutor do telejornal fazia a narração. Acabei chegando a uma sala com pilhas de fitas da Tupi, a maioria quadruplex, que tinham sido recolhidas no Cassino da Urca (antiga sede da emissora). De cara, vi programas de Flávio Cavalcanti, Aérton Perlingeiro. Vi que aquilo tinha valor histórico e liguei para o Clóvis", conta Barbedo. No Brasil, só existem hoje duas máquinas capazes de ler fitas quadruplex. Uma delas, pertencente à TV Cultura, está sendo usada num amplo projeto da Cinemateca Brasileira.
Restou ao Arquivo Nacional recorrer à TV Globo, dona da outra máquina. Felizmente, o negócio foi fechado. Pelo acordo, a emissora se encarrega de higienizar e digitalizar as fitas - um trabalho que vai custar cerca de R$ 500 mil. Como contrapartida, poderá exibir seu conteúdo por um ano. Depois, ele voltará para o Arquivo Nacional e ficará disponível para consulta pública.
"Dependendo do que tem nas fitas, elas poderão ser aproveitadas em programas como o "Arquivo N" (da Globo News)", diz Maria Alice Fontes, gerente do Centro de Documentação da TV Globo. "É um acervo riquíssimo; a TV Tupi era importantíssima."
Para tentar recuperar os filmes, muitos deles da década de 50, o Arquivo Nacional vai precisar fazer acordo semelhante com um laboratório especializado neste tipo de trabalho.
A fim de sensibilizar o público e possíveis patrocinadores, a instituição mostrou trechos de alguns deles, recuperados especialmente para a ocasião, durante uma edição do seu festival de cinema, o Recine. O que se viu dava a dimensão da importância do material: há o presidente Juscelino Kubitschek sendo aplaudido na saída do casamento de uma parente, Ana Kubitschek; os primeiros nordestinos chegando ao Campo de São Cristóvão; Leonel Brizola discursando na Câmara dos Deputados; e as prostitutas da Vila Mimosa fechando janelas ao se verem flagradas pelas câmeras da Tupi. "Os filmes estão piores que as fitas, por causa da síndrome do vinagre, que é a decomposição da película pela evaporação dos elementos químicos", explica Molinari.
As causas para a quase inexistência de material do começo da TV no Brasil são várias: algumas delas são a natureza do veículo, que no início era ao vivo, os incêndios que vitimaram diferentes emissoras e a falta de noção do valor do conteúdo produzido - o que, após a popularização do videotape, nos anos 60, levava ao reaproveitamento das fitas. O "garimpeiro" que encontrou o material da Tupi comemorou a possibilidade de sua recuperação: "Vai ser um serviço inestimável à memória do país", festeja.

Um comentário:

  1. e mesmo uma pena que a historia da tv no brasil esteja mal conservada e deteriorando.mas tomara que consiguam recuperar o pouco que sobrou para que depois vermos todo esse fantastico conteudo da tv tupi

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