quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Mario Vargas Llosa ganha prêmio Nobel de Literatura

Escritor peruano receberá R$ 2,7 milhões da Academia Sueca e virá ao Brasil na próxima semana, para um evento em Porto Alegre

O escritor peruano Mario Vargas Llosa, 74 anos, é o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura 2010, anunciou hoje a Academia Sueca. Llosa é autor de best-sellers como "Pantaleão e as Visitadoras", "A Festa do Bode" e "A Casa Verde", e foi o vencedor do Prêmio Cervantes, o mais importante da literatura em língua espanhola, em 1994. É o primeiro escritor latino-americano a ganhar o Nobel de Literatura desde o mexicano Octavio Paz, em 1990. Sua obra já foi traduzida em mais de 20 línguas. "Travessuras da Menina Má" é seu último trabalho, lançado em 2006, disponível no Brasil pela editora Alfaguara.

Segundo comunicado, Vargas Llosa recebeu o prêmio "por sua cartografia de estruturas de poder e suas imagens vigorosas sobre a resistência, revolta e derrota individual". Peter Englund, presidente do comitê de literatura do Nobel, disse que o escritor ficou "muito comovido e entusiasmado" ao saber da escolha. "Ele é um autor excepcional, e um dos grandes escritores do mundo de língua espanhola", disse Englund. "É uma das pessoas que estavam por trás do boom literário na América Latina nos anos 60 e 70, e continua trabalhando e crescendo."

Em entrevista a uma rádio colombiana, Vargas Llosa afirmou que este é um reconhecimento da literatura da América Latina. "Não pensava que sequer estava entre os candidatos", disse o escritor em Nova York, na primeira reação após receber a notícia do prêmio. "Pensava que era uma brincadeira. Tenho vontade de ir caminhar porque estou meio perplexo." De fato, ele nem aparecia entre os possíveis ganhadores nas listas das tradicionais casas de apostas britânicas, que acreditavam na campanha do poeta sueco Tomas Transtomer. "Acredito que é um reconhecimento à literatura latinoa-mericana e à literatura em língua espanhola, e isto sim deve alegrar a todos", acrescentou ele.

A vitória do Nobel vem acompanhada de uma soma em dinheiro no valor de R$ 2,7 milhões. Em 2009, o prêmio foi dado à escritora alemã Herta Müller, 12ª mulher a vencer o Nobel de Literatura. Em 2008 foi a vez de Jean-Marie Gustave Le Clézio e em 2007, Doris Lessing.

Material autobiográfico

Em mais de 30 romances, peças e ensaios, Vargas Llosa desenvolveu sua técnica de contar histórias a partir de vários pontos de vista, às vezes separados no tempo e espaço. Seu trabalho permeia os gêneros e o consolidou como uma das figuras cruciais do "boom" literário latino-americano dos anos 60.

Muitas de suas obras têm componentes autobiográficos. Seu aclamado romance de estreia, "A Cidade e os Cachorros" (1962), era inspirado na sua adolescência em uma academia militar de Lima. Em "O Peixe na Água" (1993), relatou sua experiência como candidato a presidente. "O trabalho de um autor é alimentado por sua própria experiência e, com os anos, se torna mais rico", disse Vargas Llosa em entrevista à Reuters em Madri, em 2001.

De fato, a escrita de Vargas Llosa cresceu junto com sua experiência. Ele continuou experimentando com a forma, a perspectiva e os temas. Um dos seus romances mais recentes, "Travessuras da Menina Má" (2006), foi sua primeira incursão por uma história de amor, e foi muito elogiado.

Ao longo de sua carreira, Llosa recebeu inúmeros prêmios e condecorações como o Prêmio Rómulo Gallegos (1967), o Prêmio Nacional de Novela do Peru em 1967, por seu romance "A Casa Verde", o Prêmio Príncipe das Astúrias de Letras, da Espanha (1986) e o Prêmio da Paz de Autores da Alemanha, concedido na Feira do Livro de Frankfurt (1997). Em 1993, recebeu o Prêmio Planeta por seu romance "Lituma nos Andes". Foi condecorado pelo governo francês com uma medalha de honra en 1985.

Carreira política

Nascido numa família de classe média em Arequipa, em 28 de março de 1936, Vargas Llosa viveu na Bolívia e em Lima antes de ir estudar literatura na Espanha. Sua obra já foi traduzida em mais de 20 línguas. De origem esquerdista, na década de 1970 rompeu com o regime comunista cubano, para desgosto de muitos de seus companheiros do mundo literário, e se tornou um conservador. Alguns nunca o perdoaram por sua guinada à direita, que fez o escritor defender apaixonadamente uma mistura de livre-mercado com liberalismo social, com profissão de fé na democracia e ódio por regimes autoritários.

Um dos escritores mais respeitados no continente sul-americano, concorreu à presidência do Peru em 1990, sem sucesso. Também é famosa a vez no México, em 1976, em que deu um soco no rosto do colombiano Gabriel García Márquez, agora seu colega entre os premiados do Nobel, justamente o último sul-americano a ganhar o prêmio. Logo depois do anúncio da Academia Sueca, García Márquez escreveu no Twitter: "estamos quites".

Depois da derrota na eleição de 1990, o escritor se mudou para a Espanha, onde adquiriu cidadania. "Na verdade, nunca tive uma carreira política", disse ele. "Participei da política sob circunstâncias muito especiais (...) e sempre disse que, ganhando ou perdendo as eleições, eu voltaria ao meu trabalho literário e intelectual, e não para a política."

Vargas Llosa leciona na Universidade de Princeton, em Nova York, e virá ao Brasil na próxima quinta-feira (14) para participar do evento Fronteiras do Pensamento, realizado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre. Sobre suas aulas, afirma: "Sou basicamente um escritor, não professor, mas gosto de lecionar por causa dos alunos e pela chance de falar a eles sobre boa literatura. Boa literatura não é apenas entretenimento – e é um entretenimento fantástico –, mas também algo que possibilita um entendimento melhor do mundo em que vivemos."

Em nota oficial, o presidente peruano, Alan García, parabenizou o escritor. "Vargas Llosa é um extraordinário criador da linguagem, um grande romancista, um grande dramaturgo que tem incursionado em todos os cantos da criação", afirmou.

Vargas Llosa irá à cerimônia de entrega do Nobel em 10 de dezembro – aniversário da morte de seu fundador, Alfred Nobel –, em Estocolmo, e, de acordo com a tradição, será o encarregado de fazer o discurso em nome de todos os premiados, com exceção do Nobel da Paz, realizado em um ato paralelo, em Oslo.

Nos últimos dias foram divulgados os vencedores nas categorias científicas, começando pelo de Medicina, na segunda-feira, para o britânico Robert G. Edwards; o de Física, dividido pelos russos Andre Geim e Konstantin Novoselov, e o de Química, para o americano Richard Heck e os japoneses Ei-ichi Negishi e Akira Suzuki. A rodada de anúncios se encerra na próxima segunda-feira, quando será comunicado o vencedor de Economia.

Conheça as principais obras de Mario Vargas Llosa:

Ficção
"Os Chefes" (1959)
"A Cidade e os Cachorros" (1963)
"A Casa Verde" (1966)
"Conversa na Catedral" (1969)
"Pantaleão e as Visitadoras" (1973)
"Tia Júlia e o Escrevinhador" (1977)
"A Guerra do Fim do Mundo" (1981)
"Historia de Mayta" (1984)
"Quem Matou Palomino Molero?" (1986)
"O Falador" (1987)
"Elogio da Madrasta" (1988)
"Lituma nos Andes" (1993)
"Os Cadernos de Dom Rigoberto" (1997)
"A Festa do Bode" (2000)
"O Paraíso na Outra Esquina" (2003)
"Travessuras da Menina Má" (2006)

Teatro
"A Menina de Tacna" (1981)
"Kathie e o Hipopótamo" (1983)
"La Chunga" (1986)
"El Loco de los Balcones" (1993)
"Olhos Bonitos, Quadros Feios" (1996)

Ensaios
"García Márquez: historia de un deicidio" (1971)
"Historia secreta de una novela" (1971)
"La orgía perpetua: Flaubert y Madame Bovary" (1975)
"Contra viento y marea. Volúmen I" (1962-1982) (1983)
"Contra viento y marea. Volumen II" (1972-1983) (1986)
"La verdad de las mentiras: Ensayos sobre la novela moderna" (1990)
"Contra viento y marea. Volumen III" (1964-1988) (1990)
"Carta de batalla por Tirant lo Blanc" (1991)
"Desafíos a la libertad" (1994)
"La utopía arcaica. José María Arguedas y las ficciones del indigenismo" (1996)
"Cartas a un novelista" (1997)
"El lenguaje de la pasión" (2001)
"La tentación de lo imposible" (2004)

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