terça-feira, 9 de março de 2010

Patrimônios da Humanidade no Brasil parte VI



Ruínas Jesuítico-Guaranis de São Miguel das Missões

As ruínas são o sinal remanescente do antigo povo de São Miguel Arcanjo, comunidade fundada por jesuítas espanhóis no início do século XVIII para catequizar os índios guaranis. Elas estão localizadas no município de São Miguel, no Rio Grande do Sul, a pouco mais de 500 km da capital Porto Alegre e próximo à fronteira com a Argentina.
O consultor da UNESCO, quando visitou o Brasil para conhecer as ruínas de São Miguel, afirmou que a importância da obra é a mesma que possuem aquelas do Coliseu, na Itália, ou da Acrópole, na Grécia. Por isso, o sítio foi inscrito na Lista do Patrimônio Mundial Cultural, em 1983, por respeitar o seguinte critério:

ser um exemplo excepcional de um tipo de edifício ou de conjunto arquitetônico que ilustra uma etapa significativa da história da humanidade

Localização: Planalto Meridional no Estado do Rio Grande do Sul
Área: 13.834 Km2
População: 7.432 habitantes (IBGE, 1996)
Relevo: planáltico
Altitude: até 305 metros
Vegetação: típica de climas temperados
Temperatura média: entre 19º e 17º Celsius
Índice pluviométrico: 1.500 milímetros, com chuvas bem distribuídas ao longo do ano
Distância: 485 quilômetros de Porto Alegre e 53 quilômetros de Santo Ângelo

RUÍNAS DO NOVO MUNDO
Por Percival Tirapeli *

Uma das antigas missões dos Sete Povos no Rio Grande do Sul, as Ruínas de São Miguel, veio a ser o primeiro sítio tombado no Brasil pelo então criado SPHAN (1937), atual IPHAN, constituindo-se naquela ocasião símbolo de agregação territorial, união nacional e identidade do povo gaúcho. Em 1983, esse conjunto, único exemplar completo de torre e frontaria (fachada) remanescente dos povos jesuítico-guaranis localizados no Brasil, na Argentina e no Paraguai, foi aprovado como um “testemunho do nascimento de um novo mundo, gerado pela expansão européia do século XVII e pela ação civilizadora jesuítica. (...) Este monumento não é apenas parte da história deste país, mas marco importante na história mundial” (Augusto da Silva Telles, Dossiê IPHAN/UNESCO, Arquivo Noronha Santos).


A UTOPIA LATINO-AMERICANA
Por Percival Tirapeli *

A “terra sem males” idealizada pelos jesuítas na Europa existia anteriormente em meio aos guaranis: era a “terra da paz”. Entre o céu e a terra, ficaram suspensas as possibilidades de integração entre a cultura cristã e a guarani, ainda que cada uma, a seu modo, buscasse a fraternidade e a igualdade.
Da Europa, os padres inacianos partiam com regras rígidas para gravar a “boa conduta” e o novo Deus na alma daqueles que eram “livres de leis”. O Deus cristão dera o comando do mundo ao homem, porém, o grande pai guarani, Nhanderuvuçu, legou-lhe a comunhão com a natureza. Para concretizar a missão cristã, os novos apóstolos deveriam arrebanhar os indígenas em reduções, que se constituíam cidades utópicas dispostas no alto das colinas, com 4.000 ou 5.000 almas, em casas enfileiradas em ruas largas com terreiro e igreja. Porém, as linhas retas de perspectivas renascentistas das ruas e dos edifícios impunham um novo olhar ao indígena, acostumado às linhas curvas de arcos, ocas, tabas e sinuosas trilhas. Além do mais, a grande praça, o terreiro de Jesus, onde aconteciam as danças e procissões, não possuía o fogo guarani, tataipy, que aquecia os indígenas e conjugava a fala e espírito, tetanheê. (Tavares, 1999).


AÇÃO MISSIONEIRA
Por Percival Tirapeli *

A “terra da paz”, antes da chegada dos jesuítas, estabelecia regras que faziam do trabalho um prazer: os índios não armazenavam, não vendiam, apenas trocavam produtos. Compartilhando, como uma só família, gente, natureza e animais, nada possuíam, lembrando o reino celeste prometido pelo cristianismo. Não havia governo: palavra e tradição regiam as comunidades, que, apenas em determinadas ocasiões, elegiam os tubichás, para que as comandassem. Foi essa ausência de comando que possibilitou aos jesuítas, sob as leis de Felipe II, rei da Espanha, dominar nações pacíficas que não possuíam a cobiça característica das sociedades divididas entre ricos e pobres.
Os 170 anos de poder teocrático na república guarani deixaram como legado uma língua nativa oficial no Paraguai, única na América Espanhola. No desenvolvimento técnico, a fundição do ferro e o uso da terra para o plantio; no arqueológico, vestígios de ruínas de imensos templos e cidades utópicas. Das artes musicais quase nada restou, a não ser relatos da construção de instrumentos e constituição de orquestras. Com respeito às artes plásticas, como pinturas e ornamentos, conservou-se somente um número reduzido de imaginária (figuras humanas), que, acredita-se que naquele período fossem mil peças, restando hoje 45 no Museu das Missões, projetado por Lucio Costa, e 127 espalhadas por todo o estado do Rio Grande do Sul.
Ruínas Jesuítico-Guaranis de São Miguel das Missões

CIDADES DE DEUS
Por Percival Tirapeli *

Na época de maior desenvolvimento, entre 1690 e 1750, trinta reduções — denominadas Cidades de Deus — estendiam-se ao longo de territórios hoje pertencentes ao Paraguai, Argentina e Brasil. O sul do Paraguai era ocupado por oito delas, e as atuais províncias argentinas de Corrientes e Misiones por quinze. Hoje, esse conjunto forma um grande complexo de oito sítios preservados pela UNESCO que, englobados ao Parque Nacional do Iguaçu, conformam essa vital área do Mercosul.
A parte noroeste do Rio Grande do Sul era ocupada por sete reduções ou Sete Povos das Missões, centro do Estado Jesuítico do Paraguai ou Reino Teocrático Jesuítico-Indígena junto ao Paraná e ao Uruguai. Eram denominadas São Francisco de Borja (1682), São Nicolau (1687), São Luiz Gonzaga (1687), São Miguel Arcanjo (1687), São Lourenço Mártir (1690), São João Batista (1697) e Santo Ângelo Custódio (1706).
São Miguel das Missões, fundada pelo padre Alonso de Castilhos, foi inicialmente um aldeamento assentado em 1632, em Itaiacecó. Hostilizada pelos mamelucos de São Paulo já em 1637, que procuravam captar mão-de-obra indígena, toda a população de São Miguel se transferiu para a banda oriental do Rio Uruguai.
Em 1686, foi um dos quatro povos escolhidos pelos jesuítas para ser “remudados”, buscando não só facilitar a expansão desses povos como proteger a base da economia das reduções, criando linhas de defesa contra invasões de mamelucos e portugueses. Era preciso resguardar as vacarias — estâncias fundadas no vale do Uruguai, então assoladas pelos próprios espanhóis — e zelar pelas áreas de exploração intensiva da erva-mate (Sepp, 1972, p. 136).
Quando a redução de São Miguel chegou ao auge da prosperidade, tiveram os padres de se mudar, por força da demarcação territorial imposta pelo Tratado de Madri. Os guaranis, inconformados, rebelaram-se e resistiram sob o comando do índio Sepé, mas foram forçados a abandonar a redução, não sem antes incendiar o templo.
Porém, em 1761, o Tratado de Santo Ildefonso anulou o de Madri, e o território missioneiro voltou ao domínio espanhol, possibilitando o retorno dos índios às reduções no ano seguinte. Em 1765, Carlos III, rei da Espanha, expediu decreto que expulsava os jesuítas dos domínios espanhóis, o que ocorreu definitivamente em 1768. Assim, os Sete Povos ficaram sob administração colonial direta da Espanha, que passou a explorar os indígenas e levou a região à decadência. A redução de São Miguel, no entanto, conservou vestígios do apogeu até fins do século XVIII (Leal, 1984, pp. 70-96).

ARQUITETURA JESUÍTICA
Por Percival Tirapeli *

A construção do templo de São Miguel das Missões deve ter-se iniciado em 1735 e a parte substancial terminada em 1744 ou 1747, tendo sido feito por etapas, seguindo as regras da arquitetura jesuítica. O risco original do arquiteto jesuíta João Batista Primoli é considerado o mais próximo ao modelo da Igreja do Gesù, do arquiteto Vignola, em Roma, Itália, proposto como protótipo da igreja jesuítica. Grandioso, com fachada maior que aquela feita por Giacomo della Porta em Roma, Cidade Eterna, o templo, com uma cúpula prevista, sofreu alterações durante a execução.
Um relato de 1756, época do apogeu de São Miguel, feito pelo visconde de São Leopoldo, José Feliciano Fernandes Pinheiro, descreve o grandioso empreendimento jesuítico:
“Jaz colocada na chapa de uma colina, quarteada de alguns bosques, entre os quais serpenteiam abundantes mananciais, que por fim vão confundir-se no Rio Jacuípe, distante um quarto de légua; das abas dela se estendem vistosas campinas. Na frente de uma grande praça quadrangular, na qual desembocam nove ruas, via-se o templo, bem que de paredes de pedra e barro, mas muito grossas, e branqueadas de tabatinga; era voltada para o norte, e nela se entrava por um alpendre de cinco arcos, sustentados por colunas de pedra branca e vermelha, rematada por uma vistosa balaustrada, e sobre uma gradaria da mesma pedra (da qual são também os frisos, cornijas e figuras), que coroava o frontispício, elevava-se a figura de São Miguel, e dos lados as dos seis apóstolos; a igreja é de três naves, de trezentos e cinqüenta palmos de comprido, e cento e vinte de largo, com cinco altares de talha dourada, e excelentes pinturas, e ao entrar na porta principal via-se à direita uma capela com seu altar, e pia batismal, sendo a bacia de barro vidrado de verde, assentada sobre uma moldura de talha dourada. A torre era também de pedra com seis sinos. Imediata ao lado direito da capela-mor chegava-se à sacristia, daí seguiam-se os cubículos dos padres, que eram muitos e cômodos; pegava logo um lanço de quartos, que olhavam para um grande pátio, com alpendrada em roda, destinados à escola de ler, de escrever, música vocal e instrumental, dele se comunicava para outro semelhante, formado de várias casas, em uma das quais trabalhavam vinte e quatro teares, e as outras eram oficinas de ourives, entalhadores, pintores, uma grande ferraria, muitos armazéns; e uma casa forte, que servia de prisão, tudo com admirável ordem; uma espaçosa varanda, sustentada sobre colunas de pedra lavada de vinte e cinco palmos de alto, olhava para uma horta murada de pedra e barro, com ruas alinhadas, e plantadas de pinheiros, laranjeiras, limoeiros, marmeleiros, pessegueiros, e outras muitas árvores e arbustos, tanto indígenas como exóticos. Contíguo ficava um recolhimento de viúvas e donzelas, com um só portão, e um pátio no meio” (Pinheiro, 1982, p. 84).

Ruínas Jesuítico-Guaranis de São Miguel das Missões

Com o objetivo de dar visibilidade e incentivar os projetos de Instituições de Ensino Superior relacionados aos Patrimônios da Humanidade no Brasil, o Universia disponibiliza este espaço. O objetivo é formar uma base de informações sobre os estudos, ações, projetos de extensão e pesquisas que estão sendo realizadas.

Instituições em Ação

Unisinos - Centro de Ciências Exatas e Tecnológicas
Geoarqueólogos da Unisinos determinaram os afloramentos de onde foram retirados os arenitos empregados pelos jesuítas e guaranis na construção da igreja da ex-redução de São Miguel Arcanjo. As primitivas pedreiras situam-se na Fazenda da Laje e em uma localidade chamada Esquina Ezequiel, localizadas a 12 e 14 quilômetros do sítio arqueológico de São Miguel das Missões. Em Esquina Ezequiel, as rochas ainda conservam as marcas das ferramentas utilizadas pelos antigos missioneiros.
Outra etapa importante da pesquisa foi a de encontrar segmentos das estradas missioneiras, construídas nos séculos XVII e XVIII, utilizadas para o transporte do material até o local da construção.
Os projetos mostraram a viabilidade da metodologia proposta pelos pesquisadores da Unisinos para a redescoberta da pedreira, caso haja interesse na manutenção ou restauração dos monumentos históricos.

Coordenação: Carlos Henrique Nowatzki
Informações: nowa@euler.unisinos.br

Fonte:http://www.universia.com.br/especiais/patrimonios_historicos/missoes.htm

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