segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Patrimônios da Humanidade no Brasil parte V

Fachada da Igreja Bom Jesus do Matosinhos 1757

Santuário de Bom Jesus de Matosinhos

O Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, monumento composto pela Igreja, o Adro, as esculturas dos profetas e o conjunto de capelas dos Passos, é um dos mais completos grupos de profetas do mundo, representando, sem dúvida uma das obras-primas do barroco mundial e do gênio criativo de Francisco Antônio Lisboa, que deixou no alto do Monte Maranhão uma obra impressionante.
O Santuário de Bom Jesus de Matosinhos foi incluído em 1985 na Lista do Patrimônio Mundial como Bem Cultural dentro dos critérios:

representar uma obra-prima do gênio criativo humano
ser um exemplo excepcional de um tipo de edifício ou de conjunto arquitetônico ou tecnológico, ou de paisagem que ilustre uma ou várias etapas significativas da história da humanidade

Localização: zona metalúrgica de Minas Gerais, região montanhosa do Estado, município de Congonhas do Campo
Latitude: 20º30’05” sul
Longitude: 43º51’39” oeste
Área total: 3.064 Km2
População: 41.256 habitantes (IBGE, 2000)
Índice pluviométrico: 39,2 milímetros
Temperatura média: entre 21º e 17º Celsius
Distância: 139 quilômetros de Ouro Preto e 81 quilômetros de Belo Horizonte

Passo da Ultima Ceia
SACRO MONTE DA ARTE
Por Percival Tirapeli *

Das Minas saiu uma Bíblia de pedra-sabão, banhada em ouro, diriam poetas ao subir os mais altos degraus da arte brasileira. Nossa alma lá está peregrina e cheia de arte. Os Passos da Paixão foram frutos de mãos benditas e atrofiadas entre todos os escultores. Mulato, Antônio Francisco Lisboa ousou criar em lenho o que Deus em barro modelou: homens pecadores.
Agora na hora da morte do Filho, quem esteve ao seu lado foi um Aleijadinho, que esculpiu Jesus. E a arte se fez nesse espaço de fé e crença que consagra uma plêiade de artistas mineiros que deixaram suas obras nesse conjunto arquitetônico de representação do Sacro Monte.
O templo foi construído como ação de graças pelo cura de enfermidade de Feliciano Mendes. Natural de Guimarães, do arcebispado de Braga, norte de Portugal, implantou no Monte Maranhão a devoção ao Cristo Crucificado, também venerado em Matozinhos, de Portugal.
A devoção a Bom Jesus insere-se no ciclo da Paixão de Cristo, precisamente no culto ao Cristo Crucificado ou ao Senhor Morto. Foram os padres franciscanos os responsáveis por sua disseminação, erigindo, desde o século XIII, calvários que comporiam a ambiência mística, propícia à veneração da imagem de Jesus Crucificado.

Passo cruz as costas
LENHO ARTÍSTICO - OS PASSOS

Raros são os exemplos de obras de arte feitas por um só artista, conservadas como patrimônio da humanidade. Aleijadinho, com o conjunto de Congonhas do Campo, e Lúcio Costa, que ainda vivo teve seu Plano Piloto de Brasília de 1957 preservado junto com os palácios de Oscar Niemeyer, em 1986, são exceções.
Antônio Francisco Lisboa trabalhou em Congonhas de 1796 a 1805. Entre 1796 e 1799, dedicou-se às 66 imagens de cedro dos Passos da Paixão do Senhor e, a partir de 1800, auxiliado por sua equipe, esculpiu, em pedra-sabão, os doze profetas. Também desenhou o adro e a portada da igreja e esculpiu o medalhão da escadaria.
Depois da capela da Santa Ceia, a do Horto é a segunda, mostrando um conjunto com cinco personagens extremamente harmonioso e todas as imagens de perfeita execução e acabamento, não se verificando discrepâncias que possam denotar a intervenção do “atelier”. A aparente rigidez do corpo do anjo, com membros inferiores que se suavizam ao unir-se ao torso frontal, é traço usual do estilo de Aleijadinho, que, mestre em relevos feitos em paredes, também faz temas que exigem o pleno desenvolvimento das formas no espaço.
O conjunto de imagens secundárias do Passo da Prisão é o mais homogêneo. As oito figuras são bem definidas e, bastante próximas do espírito do mestre, indicam estreita colaboração entre este e os “oficiais” que o secundaram, pressupondo mesmo interferência recíproca de trabalho em todas as peças. O tratamento “caricatural” dado às fisionomias dos soldados insere-se na antiga tradição da arte cristã ocidental, das representações medievais do teatro da Paixão.
A quarta capela tem duas cenas: a Flagelação e a Coroação de Espinhos. Na primeira, o Cristo é representado de pé, mãos atadas por uma corda que as prende ao anel da coluna baixa colocada em frente, denominada Coluna de Jerusalém, cuja presença se justifica tanto por razões de equilíbrio da composição quanto pela necessidade lógica de um suporte ao qual prender o condenado para o suplício.
No Passo Cruz às Costas, denominado Encontro com a Mãe Santíssima, dentre as quinze imagens apenas o Cristo e a mulher que enxuga as lágrimas são atribuídos a Aleijadinho. A capela da Crucificação de Cristo, com onze figuras ao todo, apresenta Cristo pregado na Cruz entre os dois ladrões e, junto a ele, sua mãe, Maria, a mulher de Cleófas e Maria Madalena (Tavares, 1972).
Todo o drama da Paixão pode ser resumido nas expressões e transformações do rosto de Cristo que o artista articula plasticamente desde a serenidade do Cristo na Última Ceia até a transformação, quando, crucificado, jaz desfigurado com o rosto moreno, síntese da obra escultórica de Aleijadinho. “É assim que vemos, nos últimos anos do século ‘galante’, no momento em que a Revolução Francesa toma a Europa de assalto, um mestiço, paralítico das mãos, em um país perdido do outro lado do Atlântico, que produz uma obra sublime, a derradeira aparição de Deus evocada pela mão do homem: Aleijadinho é o último marco na gloriosa corte dos grandes estatuários cristãos” (Bazin, 1971, p. 200).
A RECONQUISTA DE CONGONHAS

A restauração dos Passos devolveu-nos uma das mais importantes parcelas do barroco mineiro, ao mesmo tempo em que contribuiu para atestar a perícia incomum e a firmeza de conceitos do artista colonial, reafirmando a superioridade sem contraste da criação de Aleijadinho.
Reorganizadas as peças em conjuntos compostos, tornou-se irrecusável a evidência de que só uma plêiade de artistas de primeira grandeza, altamente inspirados, adestrados e, sobretudo, conscientes da função estética que desempenhavam, conseguiria realizar tal obra comum.
Até os fatores étnicos, que em seu tempo o crítico paulista Mário de Andrade definira na exata função de um estado de espírito de marginalidade angustiada, para evitar o aviltamento ou a glorificação da cor da pele, em si mesma indiferente, desempenharam um papel importante na romantização do barroco mineiro

Profeta Joel
A BÍBLIA DE PEDRA-SABÃO — OS PROFETAS
Por Percival Tirapeli *
Um espaço de cerca de dez anos medeia a conclusão da parte arquitetônica do adro e a intervenção escultórica de Aleijadinho. É graças ao drama litúrgico que os profetas se introduziram na iconografia da Idade Média com os dramas da Ressurreição e Encarnação, quando os profetas eram chamados a comparecer e testemunhar numa espécie de processo contra os judeus. Nesse drama, que derivava de um sermão de Santo Agostinho, cada profeta dizia uma frase, tirada de um de seus escritos, para provar a verdade da Encarnação. Daí a tradição.
Nos três planos do Adro, os profetas ordenam seus gestos, simetricamente, em relação ao eixo da composição - vários deles são semelhantes, como atores de um mesmo grupo, mas encarnam alguns protagonistas que trazem consigo todo o sentido do drama. Abdias, de braço estendido, ergue para o céu o dedo de justiceiro, do qual depende, para o mundo, o perdão ou a maldição; por esse gesto, como pelo do chefe do balé, proposto por Bazin, todos os outros coordenam as respectivas atitudes; Ezequiel recolhe, em seu braço dobrado, toda a cólera de Deus a fim de espalhá-la no universo em sementes de maldição. Prolongando o gesto de Ezequiel, Habacuc ergue o braço para amaldiçoar e parece levado pela violência do gesto, como se ele mesmo fosse empurrado nessa queda que prediz a seu povo.
Embriagado pela palavra de Deus, Naum titubeia, espantado; seu corpo decai, seu rosto, que lembra o do Simeão do escultor Giovanni Pisano, parece nascer da barba, que se enraíza no busto. Comparável ao Moisés do escultor medieval Sluter, Isaías refugia-se numa sabedoria que não é humana; seu gênio taciturno é mais terrível que o dos outros. Toda força parece concentrada em seu pensamento; a testa enrugada abriga raios de luz da sabedoria.
Porém, de todas as figuras, a mais genial é Jonas: ele foi apanhado no momento em que era expelido do ventre do monstro marinho. O rosto, com narinas apertadas, olhos cavos e boca entreaberta, é de um morto que ressuscita. Esse rosto se aparenta estreitamente com o do Cristo do Passo Cruz às Costas: um vindo da vida e o outro das sombras, os dois seres se encontram no mesmo limiar. O sincronismo é perfeito: a ressurreição de Jonas prefigura a de Cristo e seu nascimento para a luz três dias depois das trevas, a redenção do pecador salvo pelo sangue divino - a vida representada pela reconquista de um cadáver (Bazin, 1971, pp. 283-284).

ALEIJADINHO - ESCULTOR GENIAL
Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1730-1814), o maior estatuário da arte colonial das Américas, nasceu e morreu em Ouro Preto. O conjunto de Congonhas oferece o melhor de sua produção escultórica. Com efeito, a amplitude da obra realizada, o tempo recorde de execução (1796-1805) e a inserção já no final da vida do artista, gravemente mutilado pela enfermidade, exigiram, mais do que em qualquer outra situação anterior, a cooperação intensa de auxiliares, cuja intervenção pode ser facilmente detectada por um exame mais atento, tanto no que se refere às imagens dos Passos quanto aos Profetas do adro (Oliveira, 1984).
Apesar da doença, que teve início aos 40 anos, Antônio Francisco Lisboa jamais expressou dor ou revolta em sua arte. Os corpos esculpidos sempre estavam impregnados do espírito, da beleza e da manifestação de Deus. Mário de Andrade diz que se pode perceber uma obra de juventude mais alegre e leve como as obras de Ouro Preto e um homem maduro nas obras de Congonhas do Campo, quando fez as esculturas em tamanho natural dos Passos da Paixão.
A expressão de agonia é contida e serena, estando o corpo submisso a essa condição de mártir da vontade do Pai. Era um momento propício para extravasar um drama maior e até pessoal. A arte falou mais alto, como em todo tempo de sua vida, e preferiu expressar a dor devido à doença por quase dois anos em leito de morte sobre cepos de madeira que outrora serviam para retirar deles sopros de almas divinas expressas em esculturas de beleza acima da matéria.
fonte:http://www.universia.com.br/especiais/patrimonios_historicos/congonhas.htm acesso em 15/02/2010

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