domingo, 21 de fevereiro de 2010

Patrimônios da Humanidade no Brasil parte IV

Boqueirão da Pedra Furada

Parque Nacional da Serra da Capivara

No sudeste do estado do Piauí, o Parque Nacional da Serra da Capivara foi criado em 1979 para preservar os vestígios mais antigos de ocupação humana da América do Sul. A abundância dos mais de 400 sítios arqueológicos com instruções rupestres que representam os animais e ações cotidianas da vida humana, fez com que a teoria da migração humana pelo estreito de Behringer fosse revista.
Além disso, a paisagem ao redor dos paredões de rochas onde as inscrições se encontram é extremamente rica em fauna e flora. Por ser um impressionante registro da história da humanidade, entrou para a Lista do Patrimônio Mundial Cultural, em 1991, por respeitar o seguinte critério:
aporta um testemunho único e excepcional de uma civilização que desapareceu

Localização: sudeste do Estado do Piauí, nos municípios de São Raimundo Nonato, Brejo do Piauí, Coronel José Dias e João Costa em sua maior parte
Área: 129.140 hectares
Perímetro: 214 quilômetros
Latitude: entre 8º26’51” e 8º54’23” sul
Longitude: entre 42º19’47” e 42º45’51” oeste
Clima: quente semi-árido, com seis a oito meses secos por ano
Temperatura média: entre 24º e 26º Celsius
Temperatura máxima absoluta: entre 40º e 42º Celsius
Temperatura mínima: entre 8º e 12º graus Celsius
Distância: 559 quilômetros de Teresina


Inscrições da Tradição Nordeste

AMÉRICA ANCESTRAL
Por Percival Tirapeli *

A descoberta dos sítios arqueológicos no estado do Piauí, hoje considerado um dos mais impressionantes do mundo com aproximadamente trinta mil pinturas rupestres em trezentos e sessenta sítios já pesquisados, se deu em 1963, quando o então prefeito de São Raimundo Nonato, em visita ao Museu Paulista da Universidade de São Paulo, procurou a direção do órgão e mostrou fotos de pinturas em paredes rochosas que a população de sua cidade acreditava ter sido feitas pelos índios. A pesquisadora Niède Guidon, que ali trabalhava, logo percebeu a originalidade das pinturas e compreendeu tratar-se de obras rupestres de um gênero até então desconhecido no Brasil. Porém, foi somente em 1970, após temporada na França, que Guidon liderou a primeira missão franco-brasileira ao local (Guidon, 1991, p. 7).
Em 1991, enviou-se a Unesco um dossiê apontando sua “importância fundamental no plano arqueológico, antropológico e artístico”. O critério da UNESCO para a inscrição na lista de patrimônios mundiais, que estabelece que um patrimônio cultural deve conter “sítios arqueológicos conjugando as obras do homem e da natureza cujo valor é universal e excepcional do ponto de vista histórico e antropológico, único e extremamente raro, e que remontam à antiguidade”, ajusta-se como uma luva ao caso Serra da Capivara.
A densidade de sítios na área do parque com pinturas e gravuras rupestres é absolutamente surpreendente. Entre eles, o Boqueirão da Pedra Furada com mil pinturas sobre a rocha e que, depois de ter sido escavado durante dez anos, forneceu evidências da mais antiga presença humana nas Américas até então, pois foi freqüentado por grupos humanos durante 48.000 anos de maneira ininterrupta. Comprovações de datações similares continuam sendo obtidas no Parque Nacional, o que leva à confirmação da presença do homem americano na região desde tempos remotos — e muda os fundamentos das teorias do povoamento das Américas. No plano antropológico, as pinturas da Tradição Nordeste, um dos tipos de grafismo observados na área, são de grande importância para a reconstituição da vida social dos grupos autores desses registros: o caráter narrativo das composições é de tal importância que permitiu identificar um verdadeiro sistema de comunicação social, que experimenta no tempo certas mudanças que também foram detectadas (Pessis, 1987). Trata-se de um corpus de pinturas que cobre diversos aspectos da vida cotidiana e cerimonial.
No plano artístico, a diversidade dos estilos é abrangente, existindo composições de valor excepcional, desde o estilo inicial da Tradição Nordeste até o estilo final. Ainda, segundo o dossiê UNESCO, são notáveis, em todo o conjunto, “um equilíbrio muito trabalhado, o aproveitamento dos volumes fornecidos pela parede rochosa, o domínio da policromia, o delineamento da figura com contorno aberto que gera uma impressão de movimento e o domínio da terceira dimensão”.
No Parque Nacional Serra da Capivara, se encontra o sítio arqueológico mais antigo das Américas, a Toca do Boqueirão da Pedra Furada, o maior museu ao ar livre da Pré-História, que possui mais de 1.000 grafismos desenhados em suas paredes, mostrando diferentes figuras humanas, animais e cenas diversas. Há quase 48.000 anos, o homem pré-histórico fazia fogueiras e lascava pedras nesse sítio — descoberta que revolucionou a comunidade científica, pois põe por terra a antiga teoria de o homem ter vindo para as Américas pelo Estreito de Behring. “As explicações teóricas que precederam a descoberta de fatos hoje disponíveis foram formuladas em gabinete sem que existisse um embasamento factual suficiente” (Pessis e Guidon, 1992, pp. 19-33). Outros sítios arqueológicos apresentam datações pleistocênicas, como o Sítio do Meio, em escavação, e a Toca do Caldeirão dos Rodrigues.

A BIODIVERSIDADE DO PARQUE
Por Percival Tirapeli *

A fauna local é rica devido ao encontro de refúgios geológicos como da Mata Atlântica, Caatinga e Cerrado que abrigam espécies diversificada, destacando-se gato-do-mato (Leopardus triginus), onça-pintada (Felis onca), jaguatirica (Leopardus pardalis), tatu (Dasypus sp), paca (Agouti paca) e cutia (Dasyprocta sp), além de mocó (Keredon rupestris), um pequeno roedor que vive nas rochas. Da avifauna, seriema (Cariama cristata), também comum no cerrado, gavião-carrapateiro (Milgavo chimachima) e acauã (Herpetotheres cachinnans). Entre os répteis, sobressaem iguana (Iguana iguana), jararaca (Bothrops sp), cascavel (Crotalus durissus) e duas espécies de cobra-cipó (Phylodryas nattereri e Oxybelis aeneus). Infelizmente, afetando um pouco o delicado equilíbrio ecológico da área, foram reduzidos pela caça predatória o tatu-canastra (Tolypeutes tricinctus), o tamanduá-bandeira (Myrmecoph ridactyla) e inúmeras outras espécies, fato que levou os animais maiores, mais tarde alimentados pelos funcionários do parque, a caçar caprinos e bovinos da população circundante, além de haver aumento anormal do número de cupins e formigas, alimentação preferida do tamanduá.

Painel com figuras humanas e animais do Complexo Estilístico Serra Talhada, Toca do Boqueirão da Pedra Furada

PATRIMÔNIO EM RISCO
Por Percival Tirapeli *

Os sítios e as pinturas rupestres correm perigo mais por causas naturais que pela ação do homem. Como a serra é formada por rochas sedimentares, arenito, siltito e conglomerado, de origem marítima, e há uma aridez acentuada, a água de constituição das rochas migra para a superfície e se evapora. No caminho ela traz sais minerais contidos no interior e, ao evaporar, deixa-os na superfície, formando finas camadas de cor esbranquiçada. As camadas vão, aos poucos, cobrindo as pinturas; bactérias se instalam na superfície e se alimentam desses sais, depositando sobre a superfície pictórica os sais resultantes de seu metabolismo, auxiliando o processo degenerativo e causando descamação da parede pintada. A poeira, transportada pelo vento, é depositada sobre a parede e nela adere, formando uma fina camada que recobre igualmente as pinturas. A erosão diferencial que se produz nas paredes rochosas, no contacto entre duas camadas de rochas diferentes, cria os abrigos, pois a água das torrentes pluviais vai destruindo a parte mais baixa do paredão, deixando a parte alta como uma saliência que protege as pinturas (e os vestígios dos acampamentos dos homens que as fizeram) da chuva. O processo erosivo é contínuo, e, quando a parte saliente se torna muito grande, com um grande vazio no contacto com o chão, produzem-se desmoronamentos que podem destruir as pinturas. A caça de pássaros fez diminuir o número de predadores de insetos, e certos dípteros, conhecidos na região como maria-pobre, que tiveram as populações muito aumentadas, constroem ninhos de argila misturada com saliva, que, quando secos, encobrem as pinturas.
Pela ação do homem, deve-se à fumaça proveniente de queimadas e fogueiras nos abrigos, algumas figuras já terem se apagado. O mais grave, porém, é a extração do calcário, fazendo desaparecer para sempre sítios inteiros e transformando nossa pré-história em pó.

Detalhe de painel pictórico com figuras animais da Tradição Nordeste

Instituições em Ação
Projeto: "O homem no sudeste do Piauí: da pré-história aos dias atuais

O homem no sudeste do Piauí: da pré-história aos dias atuais – Universidade Federal de Pernambuco e Fundação Museu do Homem Americano
A historiadora e arqueóloga Niede Guidon foi a responsável pela descoberta dos sítios com inscrições rupestres, registros da pré-história do homem da América do Sul. Na década de 70, quando apenas os moradores da região admiravam os registros, a pesquisadora chegou ao local e iniciou os estudos, hoje conhecidos mundialmente.
Foi o trabalho dela quem derrubou as teorias sobre o povoamento das Américas através do estreito de Behring.
Em 2002 e 2003 foram descobertos mais de 100 sítios novos, localizados em locais de difícil acesso. "Temos pinturas datadas pelo professor Shigueo Watanabe, da USP, que estão entre as mais antigas do mundo. Além da antiguidade, temos a alta complexidade das composições que constituem um sistema de comunicação sofisticado. Uma grande capacidade simbólica que revela uma cultura profunda. Uma grande capacidade técnica, tanto de desenho como de pintura, como das pinturas de perspectiva", conta a pesquisadora.
A conservação das áreas tem sido boa até agora, mas Niede diz que se os recursos não chegarem, corre-se o risco de ser necessário demitir os funcionários que trabalham nos locais de visitação.
coordenação: Niede Guidon, pesquisadora da Universidade Federal de Pernambuco e da Fundação Museu do Homem Americano
Informações: cedocs.fumdham@terra.com.br



Formação rochosa, comum na região


Fonte:http://www.universia.com.br/especiais/patrimonios_historicos/capivara.htm acesso em 15/02/2010

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