sábado, 20 de fevereiro de 2010

Patrimônios da Humanidade no Brasil parte III

Vista do pelourinho

Centro Histórico de Salvador

Salvador é um dos principais pontos de convergência de culturas européias, africanas e americanas dos séculos XVI a XVII. A sua fundação e o seu papel histórico como capital do Brasil associam-se naturalmente ao Ciclo dos Descobrimentos.
O Centro Histórico de Salvador, abrangendo 80 ha, foi inscrito na Lista do Patrimônio Cultural da Humanidade em 1985 com base nos critérios:
ser um exemplo excepcional de um tipo de edifício ou de conjunto arquitetônico ou tecnológico, ou de paisagem que ilustre uma ou várias etapas significativas da história da humanidade
estar associado diretamente ou tangivelmente a acontecimentos ou tradições vivas, como idéias ou crenças, ou com obras artísticas ou literárias de significado universal excepcional (O Comitê considera que este critério não deveria justificar a inscrição na Lista, salvo em condições excepcionais e na aplicação conjunta com outros critérios culturais e naturais)
Localização: extremo leste do Estado da Bahia, na Zona do Recôncavo, no terço norte da costa. O polígono de tombamento contém cerca de 3.000 imóveis.
Latitude: 12º58’16” sul
Longitude: 38º30’39” oeste
Área: 760 Km2
População: de 2.443.107 pessoas (IBGE, 2000)
Altitude: até 119 metros
Clima: tropical, com temperaturas altas durante quase todo o ano. Máxima de 32º Celsius e mínima de 19º Celsius
Índice pluviométrico médio: 1.500 milímetros, com período de chuvas que vai de julho a agosto

Paineis azuleijados do claustro do convento de S. Francisco 1700
SALVADOR, PRIMEIRA CAPITAL BRASILEIRA
Por Percival Tirapeli *

A Bahia de Todos os Santos era considerada por el-rei Dom João III, de acordo com as informações fornecidas por Américo Vespúcio, como: "O lugar mais conveniente da costa do Brasil para se fazer a dita povoação e assento, assim pela disposição do porto e rios que nela entram, como pela bondade, abastança e saúde da terra e por outros respeitos.... (do regimento de Tomé de Souza, primeiro Governador-Geral do Brasil, 1549/1551)"
A implantação da cidade "na esquina do oceano" foi fruto de decisão política, tal como aconteceria com Brasília quase cinco séculos depois. É a terceira cidade brasileira a ser fundada, precedida por São Vicente, em São Paulo, em 1532, e Olinda, em Pernambuco, em 1537.

A CAPITAL DO IMPÉRIO PORTUGUÊS NA AMÉRICA
Salvador foi a mais importante cidade do mundo colonial português desde a fundação até a transferência de seu posto político e econômico para o Rio de Janeiro, em 1763. Mas esse traslado não chegou a interromper a construção do maior acervo barroco representante do ciclo econômico da cana-de-açúcar; ao contrário, o enfraquecimento das atividades econômicas pelo qual passou a cidade e seu crescimento em direção à orla marítima contribuíram para a preservação e o tombamento do centro histórico e de alguns monumentos, em 1938, pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, SPHAN, atual IPHAN.
Em 1985, finalmente, a inscrição na lista da UNESCO confirma sua relevância como bem cultural de valor internacional na vida social e política não só do Brasil como do mundo de origem portuguesa; e por realizações artísticas e estéticas, únicas do barroco luso-brasileiro, como as igrejas da Sé, São Francisco e Conceição da Praia, típicas de uma estrutura social bem representada também na feitura da fachada da Igreja da Ordem Terceira dos Franciscanos. Sociologicamente, trata-se de exemplo ímpar de relacionamento humano entre colonos, índios habitantes da terra e negros escravos, onde nasceu uma civilização com hábitos e tradições religiosas significativas para a transformação social do mundo colonial lusitano em brasilidade.
URBANISMO QUINHENTISTA
O centro histórico de Salvador preserva a trama urbana original do século XVI, com os acréscimos que foram sendo organizados durante os séculos seguintes. É a mesma configuração, com pouquíssimas alterações, da cidade que aparece na cartografia do final do seiscentos e início do setecentos.
Salvador foi o primeiro núcleo urbano brasileiro concebido com trama regular que, no entanto, desde o início, se adaptou às irregularidades da topografia do topo da crista onde se situou. Os espaços urbanos ainda conservam íntegros os caracteres originais — Praça Municipal, Terreiro de Jesus e Adro de São Francisco, Largo do Pelourinho, Largo do Boqueirão e Largo de Santo Antonio —, e é neles e na trama das ruas, ladeiras e becos que os une que se localizam os monumentos religiosos e civis.
Na Bahia de Todos os Santos, Salvador sempre possuiu um magnífico porto — o Porto de Brasil dos documentos quinhentistas e seiscentistas, ou Porto da Bahia, amplo e protegido. Graças a essas qualidades e à localização mais próxima da metrópole e da costa africana, a cidade foi passagem quase obrigatória para todas as frotas que se dirigiam ao Brasil e às feitorias da África, Índia e China.
Foi porto de abastecimento, de escala para conserto de avarias, mesmo em épocas em que, por motivos políticos, tal paragem era proibida. Representou, para o ciclo de colonização e comércio do mundo português, um dos portos mais importantes sob o ponto de vista comercial e de localização estratégica, razão pela qual foi diferentes vezes atacada, pilhada e até ocupada, se bem que por curto período, por piratas ou companhias de outros países (Dossiê IPHAN/UNESCO, Arquivo Noronha Santos).
Fachada Igreja Nossa Senhora da Conceição da Praia
ACERVO BARROCO SEISCENTISTA E SETECENTISTA
Por Percival Tirapeli *

Salvador é parte do que há de melhor na arte colonial das cidades litorâneas brasileiras. Sua vista melhor começa pelo mar, onde se avista um rosário de fortes e fortalezas que defendiam a capital, como Fortaleza de São Marcelo. É uma construção desenvolvida segundo planta circular, constituída por um torreão central envolvido por um anel de igual altura (15 metros) formado pelo terrapleno perimetral e quartéis.
A Casa da Alfândega, conhecida como Mercado Modelo, está no mesmo local do primeiro edifício erguido por Tomé de Souza. O acervo coeso representativo do barroco luso-brasileiro pode ser visto já na Cidade Baixa, na Igreja Nossa Senhora da Conceição da Praia, que tem no teto a melhor pintura ilusionista feita por José Joaquim da Rocha. Na antiga Praça do Palácio, abre-se “com grande vista para o mar”, como descreve o historiador colonial Gabriel Soares (Soares, 1971). Pode-se, portanto, começar a vivenciar o primeiro núcleo urbano que, no Brasil, foi concebido com trama retangular, a qual, no entanto, se adaptou desde o início às irregularidades da topografia onde foi situada: na crista de uma elevação que se estende paralela ao mar, abrigando a Bahia de Todos os Santos.
A Praça da Antiga Sé, espaço ampliado da antiga Praça do Palácio, ainda se abria para o mar, hoje abrangendo o espaço arqueológico das fundações da antiga Sé Primacial até o antigo Paço Arquiepiscopal. Essa volumosa construção de três pavimentos datada de 1707 está desambientada da antiga Sé, destruída em 1933, com a qual se ligava por um passadiço bem ao gosto português. Dali se chega ao Terreiro de Jesus, área onde se concentram obras-primas da arte brasileira.
O exterior da Igreja de Jesus, atual Sé de Salvador, é revestido de pedra de lioz e tem na monumental fachada elementos de diversas igrejas portuguesas, como a compartimentação rígida da Sé de Coimbra, a dupla ordem de pilastras colossais de São Roque de Lisboa e, de ambas, os arremates em frontões retilíneos e curvos (Leal, 1998, p. 109). Seu interior é o mais magnífico exemplo da arte maneirista jesuítica com altar-mor severo ladeado de pinturas que datam de 1670 e teto abobadado com pinturas de brutescos. A sacristia é considerada a primeira pinacoteca da arte brasileira, com pinturas dos primeiros jesuítas vindos ao Brasil como José de Anchieta e Manoel da Nóbrega. Na parte superior, na biblioteca, encontra-se o Museu da Sé, cuja melhor peça é a pintura ilusionista de Antonio Simões Ribeiro, o primeiro que trouxe de Portugal esse gênero pictórico.
O conjunto franciscano, além do convento e igreja, ao lado, tem a Igreja da Ordem Terceira de São Francisco, onde estão os painéis figurados de grande interesse para a história de Portugal. Na sala do consistório, encontram-se dez painéis figurados, de altura de doze azulejos e larguras variadas, com representação da área urbana de Lisboa do século XVIII. São construções de grande valor histórico, já que todas as outras da época foram destruídas pelo terremoto que tomou Lisboa em 1755. Além desses painéis, existe um claustro recoberto por azulejos de painel figurado, narrando as núpcias do príncipe Dom José com Dona Maria Ana da Áustria.

Sacristia da Igreja da Sé Interior do Convento S. Francisco

Fonte: http://www.universia.com.br/especiais/patrimonios_historicos/salvador.htm
acesso em 15/02/2010

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