quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Patrimônios da Humanidade no Brasil

Caros alunos,

Para ajudá-los a se prepararem para o Desafio Viagem do Conhecimento vou publicar no blog temas que podem contribuir na confecção da prova local.
O tema inicial é Patrimônios da Humanidade no Brasil.
Tornam-se Patrimônios da Humanidade, os bens naturais e culturais de acepção universal. O conceito por trás desta definição está na visão de que estes sítios pertencem a todos os povos do mundo, independentemente do território em que estejam localizados e com cuja proteção a comunidade internacional inteira tem o dever de cooperar.
O site Universia http://www.universia.com.br/especiais/patrimonios_historicos/index.htm
pretende dar sua contribuição, apresentando a riqueza dos Patrimônios localizados no Brasil e proporcionando um espaço permanente de divulgação de informações sobre o tema e das ações realizadas pelas Instituições de Ensino Superior brasileiras voltadas para estes locais. Para realizar este trabalho, o Universia contou com o apoio do professor da Unesp (Universidade Estadual de São Paulo), Percival Tirapeli.
Cidade Histórica de Ouro Preto

Ouro Preto situa-se no sudeste do Estado de Minas Gerais, ao pé do Monte Itacolomi. Patrimônio único por sua originalidade, concentra exemplares da arquitetura barroca de valor excepcional.
Representa uma experiência artística e urbanística ímpar, testemunho de uma tradição cultural e do gênio critativo humano.
Pela relevância do seu conjunto monumental e seu traçado urbano integrado à paisagem natural, Ouro Preto foi o primeiro bem cultural brasileiro inscrito na Lista do Patrimônio Mundial Cultural, em 1980, por respeitar os seguintes critérios:
representar uma obra-prima do gênio criativo humano
aportar um testemunho único ou pelo menos excepcional de uma tradição cultural ou de uma civilização que continue viva ou que tenha desaparecido
Localização: Serra do Espinhaço, no quadrilátero ferrífero, a sudoeste do Estado de Minas Gerais
Latitude: 20º 23’ 28” sul
Longitude: 43º 30 ’20” oeste
Área total: 1.194 Km2
População: 66.277 habitantes (IBGE, 2000)
Relevo: irregular
Altitude: até 1.179 metros
Clima: tropical de altitude
Temperatura média: entre 27º e 19º Celsius
Índice pluviométrico: 1.500 milímetros, com chuvas de verão
Distância: 87 quilômetros de Belo Horizonte e 15 quilômetros de Mariana

Igreja S. Francisco de Assis, 1766

ALEIJADINHO - O ARQUITETO
Por Percival Tirapeli *

Nasceu bastardo e escravo, “filho natural” do arquiteto português Manoel Francisco Lisboa e de uma de suas escravas africanas. Sua formação, conta Rodrigo Bretas (1858), seu primeiro biógrafo, foi a escola das primeiras letras e, talvez, algumas aulas de latim. Com respeito às artes, os mestres foram o próprio pai, arquiteto de grande projeção na época, e o pintor e desenhista João Gomes Batista, abridor de cunhos na Casa de Fundição da então Vila Rica, com os quais aprendeu arquitetura e desenho ornamental (Bazin, 1975, p. 200).
Suas obras em Vila Rica, além das igrejas, se espalham também em chafarizes, como no Hospício da Terra Santa e Palácio dos Governadores. O projeto original da fachada da Igreja Nossa Senhora do Carmo, que era de seu pai, e mais tarde a preciosa portada de pedra-sabão, os púlpitos, os altares laterais de Nossa Senhora da Piedade (1807) e São João Batista (1809), o risco dos demais e na sacristia, o lavabo.
Com 28 anos de idade, foi chamado para projetar a Igreja de São Francisco de Assis. Desenhou toda a planta e fachada e mais tarde (1774) esculpiu a portada com os medalhões, entalhou o retábulo da capela-mor em 1790-1794 e fez os projetos dos altares laterais, os púlpitos de pedra-sabão, o lavabo da sacristia. Traçou o risco da capela-mor da Igreja de São José (1773), irmandade à qual pertencia, e também da Igreja das Mercês e Perdões (1774-1778), incluindo a imagem da padroeira — parte do acervo do Museu da Prata, na Igreja Nossa Senhora do Pilar.
Sua obra escultórica se encontra, além das igrejas acima, no Museu da Inconfidência, com um altar de capela de fazenda de Serra Negra e uma sala dedicada a pequenas esculturas inclusive de presépio. No Museu Aleijadinho, na Matriz de Antônio Dias, onde está enterrado no altar de Nossa Senhora da Boa Morte, há quatro leões funerários (Barbosa, 1984).
Tem ainda projetos e riscos de igrejas e altares nas cidades vizinhas de Sabará, Catas Altas, Congonhas do Campo, Nova Lima, São João del Rei, Caeté e Tiradentes.


Interior da igreja S. Francisco de Assis, 1766

POEMA BARROCO
Por Percival Tirapeli *

Primeiro sítio brasileiro a receber a denominação de Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade pela Unesco, Ouro Preto é a principal cidade do ciclo do ouro brasileiro. Nela nasceu o genial artista colonial das Américas, Antônio Francisco Lisboa. Abrigou, da mesma forma, o mártir da independência nacional, Joaquim José da Silva Xavier. Dois mitos brasileiros, conhecidos pela alcunha de Aleijadinho e Tiradentes, que deixaram marcas decisivas na história das artes e dos ideais políticos de nosso país. Em Ouro Preto, o espírito criador do homem pontilhou um sem-número de obras de arte, transformando-lhe em poema barroco as linhas urbanas ditadas pela paisagem caprichosa.
O tecido histórico de Ouro Preto encontra-se permeado do espírito de liberdade de representantes do movimento literário árcade brasileiro, como o poeta e ex-ouvidor Cláudio Manuel da Costa, e de homens literatos, como o também poeta e ex-ouvidor Tomás Antônio Gonzaga, autor de versos essenciais da lírica brasileira.
Cidade de aspecto ímpar, foi roteiro obrigatório de urbanistas e arquitetos modernistas (Lúcio Costa, Le Corbusier, Niemeyer), literatos e críticos (Aldous Huxley e Blaise Cendrars). Pela pujança, inspirou poetas como Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meirelles, com o Romanceiro da Inconfidência, Manuel Bandeira, autor do Guia de Ouro Preto, e Mário de Andrade, com os ensaios sobre Aleijadinho. Seus heróis inconfidentes foram imortalizados na música pela suíte Vila Rica, de Heitor Villa-Lobos, e pelas cores no painel Tiradentes, de Cândido Portinari.

Forro da igreja Santa Ifigênia

ESTÉTICA MINEIRA

A natureza ofereceu excelente matéria-prima para arquitetos, mestres canteiros e artistas — como Aleijadinho e seu pai, o arquiteto Manoel Francisco Lisboa (criador de verdadeira escola de arquitetura mineira) —, que utilizaram rochas locais, como o itacolomito e a pedra-sabão, para construir as estruturas das igrejas, portadas, chafarizes e pontes. Nos edifícios religiosos, a sociedade ali estruturada projetou as aspirações espirituais e os desejos de ostentação de riquezas. Exemplos são as pequenas capelas de apenas uma torre separada do edifício e os elementos dispostos nas complexas cerimônias do culto, nos vestíbulos, nas naves, nas capelas, no coro, etc. O partido das fachadas das igrejas seguiu o das duas torres com um triângulo frontão retilíneo e depois curvilíneo, comprimido nas formas retangulares até se chegar a soluções mais complexas de plantas arredondadas. Antônio Francisco Lisboa, recebendo a incumbência de construir em 1760 a Igreja de São Francisco de Assis em Ouro Preto, realizou uma obra inovadora para a arquitetura daquele tempo, conferindo-lhe unidade plástica ímpar, ao unir o corpo retilíneo da nave a torres sineiras arredondadas e a volumosas colunas, sustentando o triângulo frontão interrompido. Para dar graça e leveza ao portado, um refinado relevo nasce dos umbrais e se ramifica pelo óculo até o brasão dos terceiros franciscanos.
O desenvolvimento da arquitetura de estilo barroco foi gradual até 1740. As primeiras construções foram de taipa, logo substituídas pela pedra, o que possibilitou, a partir de 1760, que artistas e artesãos rompessem os limites antes impostos pelos materiais utilizados, que tornavam difícil novas possibilidades de criação. Esse pequeno grupo de artistas interpretou os estilos como um ideal estético, procurando, ao lado de um trabalho artesanal árduo, soluções originais para os problemas que se apresentavam, como o emprego da pedra-sabão para substituir o mármore e a madeira nas esculturas, e o uso de pigmentos próprios da região nas pinturas inspiradas em gravuras européias, que ganhavam cor e graça com isso. Mimetizando a ambientação dos monumentos na natureza local, o interior das igrejas constitui-se em formas ricas e coloridas.
A profusão de ornamentos dourados encontrados em Ouro Preto mostra o elevado patamar a que chegou a arte barroco-rococó em Minas Gerais. Inicialmente, a ornamentação era abundante e policromada, como na Matriz de Antônio Dias (1710). Em um segundo momento, denominado “estilo Dom João V” (1720-1760), a decoração interna dos templos começa a apresentar invocações de modismos segundo a nova capital da colônia, Rio de Janeiro, introduzidos pelo entalhador Francisco Xavier de Brito. Arcanjos e dosséis passam a coroar retábulos e reduz-se a policromia, com a utilização de mais ornamentos dourados e brancos.
Nesse contexto, a Matriz do Pilar é obra de excepcional valor estético, além da capela do Padre Faria e da Igreja de Santa Efigênia. Nesta última, os retábulos, obras de Aleijadinho, denotam já um terceiro estilo de ornamentação, denominado rococó (1760-1800). Nessa fase, os elementos decorativos ganham dignidade arquitetônica, com composições assimétricas que se ampliam sobre paredes brancas, sem exageros e com uma policromia leve, azulada ou avermelhada. Finalmente, no século XIX retomam-se as linhas neoclássicas com uma simplificação absoluta. A Igreja de São Francisco de Paula (1804-1878) é o melhor exemplo (Ávila, 1980).
Com respeito à atividade pictórica mineira, ela afirma-se, na última etapa, como símbolo de arte nacional, ao constituir manifestação estética em que se distingue o caráter religioso advindo de sua condição de funcionalidade religiosa e o caráter laico perceptível na graça dos símbolos que exprimem a dinâmica histórica da sociedade que as produziu. Ao lado de mestres como o marianense Manoel da Costa Ataíde (1762-1830), inumeráveis artistas, muitos mulatos, produziram uma relevante pintura arquitetônica conforme os ditames estéticos da pintura do século XVIII. Da mesma forma, a música, especialmente a vocal religiosa, espalhou-se de maneira magnífica e abundante nas cidades mineiras. Em Ouro Preto, o pintor mestre Ataíde retratou uma orquestra angelical no teto da Igreja de São Francisco de Assis (1804-1807). Ainda hoje, composições desse estilo do final do século XVIII se fazem presentes nas missas solenes, nos Te Deum e nas procissões.

URBANISMO

Sob as tensões sociais do século XVIII, Vila Rica desenvolve um estilo particular com inovações no urbanismo, arquitetura, escultura, pintura e música, em meio a uma natureza preciosa e propícia ao desenvolvimento. Inicialmente, a cidade encontrava-se dividida em dois arraiais, dos paulistas e dos emboabas, que se desenvolveram em profundos vales cortados por córregos e encostas íngremes. Nesse traçado urbano informal, interligado por inúmeras pontes, ladeiras de forte declive dividiam o casario feito de pau-a-pique (paredes de barro e estrutura de madeira) e afluíam à Praça Tiradentes, no alto do morro, onde o Palácio dos Governadores e o Edifício da Câmara e Cadeia, hoje Museu da Inconfidência, dominavam a cidade. Situadas em plataformas naturais, as igrejas das ordens terceiras e confrarias sobrepunham-se ao casario civil, os quais se enfileiram e se escoram subindo e descendo ladeiras. Com escadarias nos adros, esses templos compunham, auxiliados pela natureza, espaços cênicos de efeitos pitorescos (Bandeira, 1963).
As igrejas negras também assumem papel importante nesse sítio de confronto racial. São exemplos a Igreja de Santa Efigênia, que tem uma pintura representando um papa negro em homenagem ao escravo Chico-Rei, que a patrocinou, e um adro de onde se divisa grande parte do povoado dos paulistas; e a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, no arraial dos emboabas, que ostenta o mais barroco projeto da arquitetura brasileira, com planta elíptica, próxima à dos modelos do arquiteto romano Borromini.

Igreja Nossa Senhora da Conceição, 1727

TERRA DO OURO

Ouro Preto parece ter nascido com o toque de Midas, privilegiada "por uma natureza ciclopicamente barroca", no dizer do ensaísta Lourival Gomes Machado. Plantada na Serra do Espinhaço, no interior da colônia, é emoldurada por paisagem excepcional onde alteia o Pico do Itacolomi, marco visual para os bandeirantes paulistas que lá chegaram em 1693.
Os exploradores paulistas, que buscavam aprisionar índios e obter riquezas, encontraram no interior do país, na então província de São Paulo, a terra do ouro, as Minas Gerais. Partindo da cidade de Taubaté, pela Serra da Mantiqueira, lançaram-se a uma aventura que culminaria com a construção de um novo Brasil. A base da nova sociedade não era mais a terra, como ocorrera no ciclo da cana-de-açúcar, que gerara prontamente estáveis núcleos urbanos, transformados em portos para a exportação. Ao contrário, foram o ouro e diamante que afloravam dos veios que fizeram prosperar grande quantidade de arraiais, elevados posteriormente à condição de vilas, tão diferentes do binômio fazenda-cidade do litoral. A mineração criou um novo paradigma da ordem social no Brasil colônia.
A aventura do ouro durou apenas cerca de quarenta anos. Com a estagnação, a população afastou-se dos núcleos urbanos em direção a áreas vazias, desenvolvendo atividades de subsistência que enfrentavam problemas com o transporte de víveres, bem como com a instalação de indústrias — ambos proibidos. Com o endividamento da população, a voracidade da máquina fiscalizadora da Coroa e o não pagamento dos tributos, geraram-se pequenos conflitos, resultando na Conjuração de Vila Rica (1788-1789), calada pela traição e sufocada pela lei.
Entre os alferes perseguidos, o silêncio maior foi imposto a Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, preso, sumariamente julgado no Rio de Janeiro, enforcado, esquartejado, cujos pedaços foram expostos no Caminho Novo às Minas, até chegar a cabeça salgada, empalada e exposta em praça pública — em frente ao Palácio dos Governadores em Vila Rica — para gáudio da rainha Maria I, que anos depois enlouqueceria.
fonte: http://www.universia.com.br/especiais/patrimonios_historicos/index.htm acesso em 12/02/2010

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